Líder de seita apocalíptica no Quénia condenado a 200 anos de prisão
Paul Mackenzie foi sentenciado pelo homicídio de 191 pessoas, maioritariamente crianças, forçadas a jejuar até à morte numa propriedade remota.
O tribunal da cidade costeira de Mombaça, no Quénia, condenou o líder religioso Paul Mackenzie a 200 anos de prisão pelo homicídio de 191 pessoas, maioritariamente crianças. Mackenzie, que liderava a seita apocalíptica Igreja Internacional da Boa Nova, convenceu e forçou centenas de seguidores a jejuarem até à morte com a promessa de que assim se encontrariam com Jesus antes do fim do mundo.
A origem e o funcionamento da seita
Paul Mackenzie, um antigo motorista de táxi e pregador televisivo, estabeleceu a sua comunidade numa propriedade isolada de 320 hectares, conhecida como Chakama Ranch, situada na floresta de Shakahola, no condado de Kilifi. Entre 2019 e 2023, os membros do grupo viveram em habitações de barro, afastados de qualquer fiscalização das autoridades locais e do contacto com as populações vizinhas.
Nesse local remoto, Mackenzie promovia a seita como um refúgio contra o apocalipse. De acordo com relatos apresentados em tribunal e por antigos membros, o líder determinou que os pais deviam fazer com que os filhos jejuassem ao sol e morressem em primeiro lugar, de forma a garantirem a entrada no céu antes dos adultos. A maioria das 190 crianças vitimadas tinha menos de dez anos de idade. Para além das crianças, foi igualmente confirmada a morte de um adulto nestas circunstâncias.
A cumplicidade dos seguidores e a decisão judicial
A condenação do líder da seita não foi isolada. Mackenzie esteve no banco dos réus ao lado de 28 seguidores, entre os quais figuravam guardas encarregados de impor o jejum através da violência, coveiros responsáveis por ocultar os corpos em valas comuns e pais que subjugaram os próprios filhos à privação de alimentos.
Embora quase todos os arguidos tenham alegado inocência — com exceção de um que confessou e pediu clemência —, o tribunal considerou os 29 acusados culpados no passado mês de outubro. A juíza Diana Kavedza atribuiu a Mackenzie a responsabilidade criminal principal pelo massacre. Contudo, rejeitou o pedido da acusação para aplicar a pena de morte, justificando que a pena capital poderia ser interpretada pelos seguidores como um martírio ou uma libertação, em vez de uma punição. Os restantes cúmplices receberam penas que variam entre os 10 e os 160 anos de prisão.
O que ainda não se sabe
Apesar do encerramento deste julgamento relativo a 191 vítimas, permanecem por esclarecer vários aspetos sobre a totalidade da tragédia na floresta de Shakahola. As autoridades quenianas exumaram mais de 400 corpos de valas comuns na propriedade em 2023, não se sabendo ainda se existirão novos processos judiciais ou acusações formais relativamente aos restantes mortos encontrados.
Também não é totalmente claro como é que a seita conseguiu operar de forma quase invisível durante cerca de quatro anos sem que as autoridades locais ou as forças de segurança detetassem a morte em massa de centenas de pessoas, mantendo em aberto o debate sobre a fiscalização de organizações religiosas no país.
FONTES
- [RTP Notícias Mundo] Pastor queniano condenado a 200 anos de prisão pelo homicídio de 191 pessoas
- [Observador] Condenado a 200 anos de prisão pelo homicídio de 191 pessoas
- [Notícias ao Minuto] Pastor queniano sentenciado a 200 anos por homicídio de 191 pessoas
- [Estadão] Líder de seita no Quênia é condenado a 200 anos de prisão pelo assassinato de 190 crianças
- [Correio da Kianda] Pastor queniano condenado a 200 anos de prisão pela morte de 191 pessoas