Ataques do Estado Islâmico em Cabo Delgado deixam 19 mortos em dez dias
Entre 21 e 31 de outubro, extremistas ligados ao Estado Islâmico de Moçambique mataram pelo menos 19 civis nos distritos de Mueda e Muidumbe, revelando vulnerabilidades nas forças de segurança e risco de tensões étnicas.
Contexto da insurgência em Cabo Delgado
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em recursos de gás, vive uma insurgência armada que já causou mais de 6.600 mortes e deslocou cerca de 1,3 milhão de pessoas, segundo organismos internacionais. O grupo conhecido como Estado Islâmico de Moçambique (ISM) tem mantido presença activa em várias áreas da província.
Os ataques de outubro
De acordo com a atualização de novembro da base de dados ACLED, entre 21 e 31 de outubro de 2023, combatentes do ISM atacaram pelo menos sete localidades nos distritos de Mueda e Muidumbe. Os ataques resultaram em 19 mortos, quase todos civis que realizavam as suas atividades quotidianas. Entre as vítimas estavam dois compradores de castanha de caju, mortos sob um cajueiro, e jovens que produziam a bebida local chamada napa para vender.
Os comunicados do ISM descreveram as vítimas como cristãs, estratégia que pode ter como objetivo provocar ou aprofundar tensões comunitárias numa zona historicamente dominada pela etnia Makonde.
Operações e capacidades do ISM
A ACLED indica que, em outubro, o ISM esteve activo em nove distritos da província, demonstrando capacidade para conduzir operações “abrangentes” e explorando fragilidades no comando, na inteligência e na logística das forças militares moçambicanas. O grupo recebeu um resgate de 53.000 dólares (cerca de 47.600 euros) por um sequestro em Montepuez no início do mês, o que permitiu que combatentes regressassem à base em Macomia sem interferência das forças de segurança. Até 100 combatentes foram destacados para Montepuez antes de se deslocarem para Mueda e Muidumbe, onde visaram comunidades rurais.
Resposta das forças de segurança
Mueda alberga o quartel‑general da Força Local, uma milícia paramilitar, e um destacamento significativo das Forças Armadas e de Defesa de Moçambique (FADM). Apesar do conhecimento local da presença do ISM, a resposta das forças de segurança foi considerada insuficiente, permitindo que os atacantes se movimentassem livremente durante mais de dez dias.
As Forças de Defesa de Ruanda (RDF) também estiveram presentes nas zonas costeiras, com resultados mistos. Uma patrulha da RDF confrontou o ISM perto da aldeia de Cogolo, sem que se conheça o número de baixas. Em 18 de outubro, a RDF interceptou um grupo de combatentes do ISM que comprava suprimentos perto de Marijirane, matando pelo menos seis insurgentes e um civil.
Possíveis repercussões étnicas e políticas
A descrição dos alvos como cristãos numa região dominada pelos Makonde pode ser uma tentativa deliberada de inflamar tensões entre as comunidades Makonde e Mwani, sobretudo na vila de Mocímboa da Praia. Em agosto, o ISM já tinha dirigido ataques a bairros predominantemente Makonde, provocando deslocamentos para Mueda.
O que ainda não se sabe
Os relatórios não especificam o número total de combatentes do ISM envolvidos nos ataques de outubro, nem quantas forças de segurança foram efetivamente mobilizadas para conter a ofensiva. Não há informações claras sobre o número de feridos, nem sobre a identidade exacta das vítimas descritas como “cristãs”. Também permanece incerto até que ponto as tensões étnicas entre Makonde e Mwani foram efetivamente exacerbadas pelos ataques, e quais serão as respostas políticas a curto e médio prazo.
FONTES
- [Observador] Moçambique. Pelo menos 19 mortos em dez dias em Cabo Delgado
- [RTP Notícias Mundo] Extremistas mataram pelo menos 19 pessoas em dez dias em Cabo Delgado
- [Notícias ao Minuto] Extremistas do ISM mataram pelo menos 19 pessoas em 10 dias, diz ACLED
- [Público] Ataques extremistas em Cabo Delgado fazem pelo menos 19 mortos em dez dias, quase todos civis